ETF de renda fixa com 15% de imposto: como LFTB11, LTBX11 e GPOS11 escapam do come-cotas

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Cotas de ETF de renda fixa na tela do home broker, com um gráfico estável de Tesouro Selic ao fundo e a alíquota de 15% em destaque

Quem deixa dinheiro em fundo DI ou em Tesouro Selic conhece a mordida. Resgatou antes de dois anos, paga 22,5%, 20% ou 17,5% de imposto sobre o rendimento, conforme o prazo. Só chega aos 15% quem segura por mais de 720 dias. No fundo DI ainda existe o come-cotas: em maio e em novembro, o governo antecipa o imposto e leva uma fatia das cotas, mesmo que você não tenha resgatado nada.

Existe um tipo de ETF de renda fixa que resolve as duas coisas. A alíquota é de 15% desde o primeiro dia, sem come-cotas, e o imposto só é cobrado na venda. Até pouco tempo esses fundos eram pequenos demais para entrar na conversa. Em outubro de 2026 o maior deles, o LFTB11, passou de R$ 6,9 bilhões de patrimônio e 79 mil cotistas, e outros quatro gestores lançaram produtos com a mesma receita.

Este artigo explica como a regra do imposto funciona, por que um ETF só de Tesouro Selic paga 25%, como os chamados ETFs híbridos chegam aos 15% e o que muda entre LFTB11, LTBX11, GPOS11, CDIB11 e POSB11. Os números vêm dos informes diários que os fundos entregam à CVM pelo Fundos.NET, com data de 23 de outubro de 2026.

Principais pontos

  • No ETF de renda fixa, a alíquota de imposto depende do prazo médio da carteira do fundo, não do tempo que você fica investido: 25% até 180 dias, 20% de 181 a 720 dias e 15% acima de 720 dias.
  • ETF só de Tesouro Selic tem prazo médio curto e cai nos 25%. Os híbridos colocam cerca de 90% em Tesouro Selic e cerca de 10% em uma NTN-B longa (Tesouro IPCA+ 2060) para puxar o prazo médio acima de 720 dias.
  • Não há come-cotas. O imposto é retido na fonte na venda das cotas, sem DARF.
  • O resultado se comporta como pós-fixado: entre setembro de 2025 e setembro de 2026 o LFTB11 subiu 14,5%, contra 14,5% do CDI no mesmo período.
  • Cinco ETFs híbridos estão listados na B3. A taxa vai de 0,10% (GPOS11) a 0,19% ao ano (LFTB11 e POSB11); o LFTB11 concentra o patrimônio e a liquidez.

Como funciona o imposto do ETF de renda fixa

A regra está na Lei 13.043, de 2014. Nos fundos de renda fixa comuns e no Tesouro Direto, a alíquota cai conforme o tempo em que o investidor fica aplicado. No ETF de renda fixa, a alíquota depende do prazo médio de repactuação da carteira do fundo, medido pelo próprio fundo. Quem compra e vende em uma semana paga a mesma alíquota de quem fica cinco anos.

PrazoFundo DI e Tesouro Direto
(tempo do investidor)
ETF de renda fixa
(prazo médio da carteira)
Até 180 dias22,5%25%
De 181 a 360 dias20%20%
De 361 a 720 dias17,5%20%
Acima de 720 dias15%15%

Duas diferenças práticas completam o quadro. O ETF de renda fixa não tem come-cotas, aquela antecipação semestral de imposto que reduz o número de cotas do fundo DI. E o imposto do ETF é retido na fonte no momento da venda, pela instituição que intermedeia a operação, sem DARF para o investidor emitir. Isso é diferente do ETF de ações, em que o próprio investidor apura o ganho e recolhe o imposto.

Para quem não conhece o produto, vale a leitura do guia o que é um ETF e como ele funciona antes de seguir.

Por que um ETF só de Tesouro Selic paga 25%

O Tesouro Selic (a LFT) é um título pós-fixado que acompanha a taxa Selic dia a dia. Para a regra do imposto, o que conta é o prazo de repactuação, e num título pós-fixado esse prazo é de um dia, porque a taxa é refeita diariamente. Um ETF que só tem Tesouro Selic na carteira fica com prazo médio curtíssimo e cai na alíquota de 25%.

Esses ETFs existem e são enormes, mas não foram feitos para a pessoa física. O BLFT11, do Bradesco, tinha R$ 14,0 bilhões de patrimônio e 496 cotistas em 23 de outubro de 2026. O SELI11, do Banco do Brasil, tinha R$ 6,7 bilhões e 26 cotistas. São caixas de tesouraria de instituições, com giro pequeno em bolsa.

A receita dos ETFs híbridos: 90% Selic, 10% NTN-B longa

Para alcançar os 15%, os ETFs híbridos colocam a maior parte da carteira em Tesouro Selic e uma fatia pequena, na casa dos 10%, numa NTN-B longa, o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2060. A NTN-B é prefixada em juro real e tem prazo de repactuação igual ao prazo até o vencimento, mais de 30 anos. Uma fatia de 10% com prazo tão longo puxa a média ponderada da carteira para cima dos 720 dias.

Os índices que esses fundos seguem explicitam a meta. O LFTB11 segue um índice com prazo médio alvo de 760 dias; o LTBX11 e o CDIB11, índices com alvo de 760 e 800 dias; o GPOS11 segue um índice que mira 885 dias no rebalanceamento mensal, o que dá mais folga em relação aos 720 da regra. A folga importa porque, se o prazo médio cair abaixo de 720 dias, a alíquota do fundo sobe para 20%.

O que muda no comportamento da cota

O resultado é um fundo que se comporta como pós-fixado: rende perto do CDI, dia após dia, descontada a taxa. Mas com um pouco mais de oscilação, porque a fatia em NTN-B longa é marcada a mercado e balança com os juros reais. Não é volatilidade de bolsa; é um tremor pequeno em cima de uma base que acompanha a Selic.

O histórico mais longo é o do LFTB11, na B3 desde novembro de 2024. Entre 30 de setembro de 2025 e 30 de setembro de 2026, a cota de fechamento do LFTB11 subiu 14,49%. O CDI acumulado nos 12 meses até setembro de 2026 foi de 14,47%, segundo o Banco Central. Ou seja, mesmo com a taxa de 0,19% ao ano e a fatia em NTN-B, o fundo entregou o CDI nesse período. Em períodos curtos, a NTN-B pode puxar o resultado para cima ou para baixo do CDI.

Para comparar com outras aplicações pós-fixadas, veja FII ou renda fixa: qual vale a pena e os FIIs atrelados ao CDI.

Os ETFs híbridos de Tesouro Selic listados na B3

Cinco ETFs usam a receita descrita acima. A tabela traz a taxa total informada pelo gestor, o patrimônio e o número de cotistas do informe diário mais recente (23 de outubro de 2026, ou 22 de outubro para CDIB11 e POSB11) e o giro médio em bolsa dos 30 pregões até 26 de outubro de 2026.

#ETFGestoraNa B3 desdeTaxa total
ao ano
PatrimônioCotistasGiro médio
por dia
1LFTB11Investonov/20240,19%R$ 6,91 bi79.676R$ 85 mi
2POSB11Galápagosmai/20260,19%R$ 671 mi7.718R$ 11 mi
3LTBX11XP (Trend)mai/20260,14%R$ 487 mi8.146R$ 19 mi
4CDIB11Itaújun/20260,15%R$ 409 mi5.268R$ 8,7 mi
5GPOS11Grãoset/20260,10%R$ 341 mi16.127R$ 10 mi

ETFs híbridos de Tesouro Selic listados na B3, ordenados por patrimônio. Fontes: informes diários no Fundos.NET (patrimônio e cotistas), B3 (cotações) e gestores (taxa). Dados de outubro de 2026.

LFTB11, o pioneiro e o maior

O LFTB11, da Investo, foi o primeiro ETF híbrido, listado em novembro de 2024. A carteira tem cerca de 91% em Tesouro Selic e 9% na NTN-B 2060. É de longe o maior da categoria, com R$ 6,9 bilhões de patrimônio, quase 80 mil cotistas e giro na casa de R$ 85 milhões por dia, o que facilita comprar e vender sem mexer no preço. A taxa é de 0,19% ao ano. É aceito como garantia em operações na B3, o que interessa a quem opera opções ou futuros.

LTBX11, a versão da XP

O LTBX11, gerido pela XP sob a marca Trend, chegou em maio de 2026 com a mesma receita e taxa menor, de 0,14% ao ano. Tinha R$ 487 milhões de patrimônio, 8,1 mil cotistas e giro de R$ 19 milhões por dia em outubro de 2026. Itaú (CDIB11) e Galápagos (POSB11) lançaram os seus entre maio e junho de 2026, sinal de que a estrutura virou padrão de mercado.

GPOS11, o mais novo e o mais barato

O GPOS11, da Grão, é o mais recente, listado em setembro de 2026. Segue o índice Teva ITBR Selic Inteligente: as cinco LFTs mais curtas do mercado mais a NTN-B mais longa disponível, com pesos iguais e rebalanceamento mensal mirando um prazo médio de 885 dias. Tem a menor taxa da categoria, 0,10% ao ano (0,075% de administração e 0,025% de custódia). Em menos de dois meses juntou R$ 341 milhões de patrimônio e mais de 16 mil cotistas, com giro perto de R$ 10 milhões por dia.

Como escolher entre eles

Os cinco têm a mesma espinha dorsal, mas não são iguais. Quatro critérios separam um do outro:

  • Taxa. Vai de 0,10% a 0,19% ao ano. Num produto que rende perto do CDI, cada 0,05% de taxa é uma diferença pequena, mas permanente.
  • Folga do prazo médio. Índice com alvo de 885 dias tem mais distância dos 720 do que um com alvo de 760. Quanto maior a folga, menor a chance de o fundo escorregar para a alíquota de 20%.
  • Tamanho e liquidez. Patrimônio grande e giro alto significam comprar e vender perto do valor da cota, com spread pequeno. Aqui o LFTB11 está sozinho.
  • Composição. Quantas LFTs, qual NTN-B, pesos iguais ou por valor de mercado. Isso muda o tamanho do tremor da cota no dia a dia.

No ETF360, o relatório mensal em que analiso praticamente todos os ETFs listados na B3, quase 200 fundos, um desses híbridos passou a figurar na lista de recomendados em outubro de 2026, a primeira vez que um ETF de Tesouro Selic entra nela. Qual dos cinco, e o que o diferencia dos outros, está no relatório, para os assinantes. Este artigo não é recomendação; a categoria inteira já resolve o problema do imposto, e a escolha entre eles é o detalhe.

Para quem faz sentido e o que observar

O uso mais óbvio é o dinheiro que hoje fica em fundo DI pagando 22,5% de imposto e come-cotas: caixa para oportunidades, reserva de médio prazo, dinheiro parado entre uma aplicação e outra. Quem tem horizonte acima de dois anos já paga 15% no Tesouro Selic, e aí a vantagem do ETF fica só no come-cotas e na praticidade.

Três pontos de atenção. A liquidação da venda em bolsa é em dois dias úteis, e não no mesmo dia como no fundo DI. A fatia em NTN-B pode fazer a cota cair num dia de estresse nos juros, o que não acontece no Tesouro Selic puro. E a taxa do ETF se compara com a taxa do fundo DI do seu banco, que costuma ser maior, e com o Tesouro Selic direto, que tem taxa de custódia da B3 de 0,20% ao ano acima de R$ 10 mil.

Quem procura renda mensal não vai encontrar aqui: esses cinco ETFs não distribuem proventos, o rendimento fica dentro da cota. Para os que pagam, veja o ranking dos ETFs que pagam dividendos mensais na B3. E para dólar na carteira, veja os ETFs dolarizados SPXI11, WRLD11 e USDB11.

Perguntas frequentes

ETF de renda fixa tem come-cotas?

Não. O come-cotas vale para fundos de renda fixa, DI e multimercado abertos. ETFs de renda fixa estão fora dessa regra, e o imposto só é cobrado na venda das cotas, retido na fonte.

Qual a diferença entre LFTB11 e Tesouro Selic?

O Tesouro Selic é um título comprado direto do Tesouro, com imposto de 22,5% a 15% conforme o tempo em que você fica. O LFTB11 é um ETF que tem Tesouro Selic e uma fatia de NTN-B 2060 na carteira, negociado em bolsa, com imposto fixo de 15% e sem come-cotas. Em troca, a cota oscila um pouco mais e a venda liquida em dois dias úteis.

LFTB11, LTBX11 e GPOS11 pagam dividendos?

Não. Os cinco ETFs híbridos reinvestem o rendimento dos títulos, e o ganho aparece na valorização da cota.

O que acontece se o prazo médio da carteira cair abaixo de 720 dias?

A alíquota do fundo sobe para 20%. Os gestores rebalanceiam a carteira para manter a folga, e os índices seguidos têm alvos de 760 a 885 dias justamente para isso.

ETF de Tesouro Selic serve como reserva de emergência?

Depende da sua tolerância a dois detalhes: a venda em bolsa leva dois dias úteis para cair na conta, e a cota pode oscilar um pouco por causa da NTN-B. Para a parte da reserva que precisa estar disponível no mesmo dia, o Tesouro Selic ou o fundo DI continuam mais adequados.

Fontes

  • Informes diários dos fundos (patrimônio, cotistas e cota patrimonial) entregues à CVM pelo Fundos.NET, de 22 e 23 de outubro de 2026.
  • Cotações de fechamento da B3; giro = média do volume financeiro dos 30 pregões até 26 de outubro de 2026.
  • CDI acumulado de outubro de 2025 a setembro de 2026: série 4391 do Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central.
  • Lei 13.043/2014, artigos 2º a 6º (tributação dos fundos de índice de renda fixa).
  • Regulamentos e páginas dos gestores (Investo, XP, Grão, Itaú e Galápagos) para taxa e índice de referência.

As informações contidas neste texto têm caráter puramente informativo e não constituem qualquer tipo de aconselhamento financeiro, recomendação de compra, venda ou manutenção de ativos. Retornos passados não são garantia de rentabilidade futura. Investimentos em ETFs envolvem riscos, incluindo a possível perda do capital investido. O investidor deve analisar seu perfil de risco e ler atentamente os documentos oficiais do fundo antes de tomar qualquer decisão.

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Marcelo Fayh

Marcelo Fayh é analista de investimentos certificado (CNPI) e consultor de investimentos credenciado na CVM, fundador da US Wealth Consultoria de Investimentos (também credenciada na CVM).

Atua no mercado financeiro desde 2005: foi sócio de um escritório de agentes autônomos por quase 9 anos, trabalhou com M&A por 4 anos e é analista e consultor de investimentos há mais de 7 anos, especializado em Fundos Imobiliários (FIIs) e ETFs. É autor do livro Método Fayh: Descubra Como Escolher os Melhores Fundos Imobiliários do Mercado e Viva de Renda.

No blog, traduz os documentos oficiais dos fundos — fatos relevantes, relatórios gerenciais e informes — em análises acessíveis.

O conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento.

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