URPR11: Balanço financeiro de 2025 é publicado com ressalvas da auditoria

Documentos contábeis e financeiros em análise através de uma lupa indicando uma auditoria corporativa profunda.

O fundo imobiliário Urca Prime Renda (URPR11) publicou em 12 de junho de 2026 o seu balanço financeiro referente ao exercício encerrado em 31 de dezembro de 2025. O documento oficial veio acompanhado de um parecer com qualificações — o jargão contábil para as conhecidas “ressalvas” — emitido pela Grant Thornton Auditores Independentes.

Isso significa que a empresa contratada para auditar de forma independente as contas do fundo encontrou barreiras estruturais ou operacionais para atestar a exatidão de certos valores registrados. Segundo o comunicado assinado pela administradora Vórtx DTVM, as limitações envolveram principalmente a falta de acesso a documentos de projetos controlados, descasamentos de datas na prestação de contas de investimentos e incertezas sobre o volume de saldos contábeis mantidos em carteira.

Entenda os motivos das ressalvas no balanço do URPR11

O parecer da Grant Thornton apontou três razões centrais para não emitir uma aprovação limpa e sem ressalvas do balanço patrimonial. O ponto de maior peso relatado foi caracterizado como uma “limitação de escopo”: a auditoria e a própria administradora não conseguiram obter acesso às demonstrações financeiras já auditadas das Sociedades de Propósito Específico (SPEs) ligadas ao fundo. As SPEs são empresas criadas exclusivamente para desenvolver e isolar financeiramente projetos imobiliários, como loteamentos ou edifícios. Sem poder conferir os registros auditados destas empresas parceiras, a auditoria não teve evidências contábeis suficientes para garantir que o saldo informado destes ativos condiz com a realidade.

O segundo motivo apontado no documento foi uma defasagem temporal. A auditoria identificou um atraso entre a data-base de análise do balanço do fundo e o último relatório financeiro divulgado de forma pública pelo Residence Club Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), um fundo de crédito que faz parte dos investimentos ativos na carteira do URPR11.

Por fim, a terceira ressalva destacou que a auditoria não obteve o chamado “conforto contábil” sobre a adequação dos saldos classificados de forma genérica na rubrica de “Outros créditos”.

Medidas adotadas pelo fundo para reverter as restrições

Apesar dos múltiplos apontamentos levantados pela Grant Thornton, a Comissão de Administração Fiduciária do fundo decidiu pela aprovação e divulgação imediata do balanço com as qualificações. A justificativa do fundo foi a necessidade de manter seu compromisso de transparência e de disponibilizar as informações financeiras mais recentes ao mercado de forma tempestiva, ainda que a administradora assuma haver o risco de “possíveis distorções” nestes números.

Para tentar resolver as lacunas na documentação e limpar o histórico de balanço, a administradora encaminhou um plano de ação emergencial para a Urca Gestão de Recursos (gestora do URPR11). Este plano de trabalho exige a conclusão rápida e a validação de novos laudos de avaliação emitidos por auditorias independentes diretamente focados nas SPEs problemáticas. O objetivo da gestão é conseguir informações consistentes o suficiente para realizar uma reemissão formal das demonstrações financeiras de 2025, buscando reverter e anular a qualificação lançada no relatório de auditoria.

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Contexto financeiro do Urca Prime Renda e de seus ativos

O URPR11 é classificado no mercado como um representante dos FIIs de papel, com sua estratégia de negócio majoritariamente focada na compra de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) vinculados a loteamentos, prédios multipropriedade e empreendimentos horizontais diversos.

Dados de desempenho de mercado mais atuais refletem um momento de elevado estresse para a precificação de seus ativos. Segundo informações da base de encerramento de maio de 2026, o fundo imobiliário abrigava um Patrimônio Líquido apurado em R$ 983,7 milhões. Contudo, na mesma data da publicação deste balanço com ressalvas (12 de junho de 2026), o fundo operava sendo negociado na bolsa com um severo desconto patrimonial, indicando uma relação P/VP (preço sobre o valor patrimonial) de meros 0,27. Houve também uma contração considerável na base de participantes: o número de cotistas, que ultrapassava a marca de 63 mil investidores ao fim de 2025, recuou para a faixa de 56.984 neste levantamento mais recente.

A distribuição de proventos reflete essa tensão de mercado e exibe uma grande distorção dependendo da lente adotada. Enquanto o indicador dividend yield (DY) Patrimonial acumulado em 12 meses, medido sobre o valor justo dos ativos da carteira, ficou na faixa de 5,36% em maio de 2026, o seu correspondente DY de Mercado chegou a marcar expressivos 17,86% ao ano, impulsionado quase que inteiramente pela brutal desvalorização da cotação no ambiente da B3.

O que a ressalva da auditoria significa para o cotista

Para o investidor que mantém fundos imobiliários de dívida na carteira, a publicação de um balanço classificado com “qualificação” ou limitação por parte da auditoria independente funciona como um claro sinal amarelo na avaliação de governança do fundo. A função vital de uma auditoria independente no mercado de capitais é testar as afirmações e assegurar aos sócios e cotistas que a fotografia dos números repassada pelo gestor exprime a condição real dos negócios suportados.

Nos últimos anos, outros fundos de papel high yields também tiveram algum tipo de ressalva em suas demonstrações contábeis. Foi o caso de HCTR11 – Hectare e CACR11 – Cartesia. Ambos os fundos apresentaram sérios problemas e até agora não se recuperaram, causando prejuízos e desconforto aos seus investidores. Não necessariamente será este o mesmo destino do URPR11, mas o cosita precisa ficar mais atento do que nunca ao que acontece no fundo.

Neste caso, a ausência de acesso às peças contábeis auditadas diretamente na ponta das SPEs é o gargalo mais sensível a se observar. Em estruturas financeiras focadas em custear o desenvolvimento físico de loteamentos e obras — perfil forte do URPR11 —, as SPEs são o terreno físico e legal de onde emergem os recebíveis. Se a contabilidade principal do fundo possui barreiras burocráticas ou operacionais para atestar, de forma inquestionável, a integridade da situação financeira destas empresas do portfólio, o cotista corre o risco colateral de ancorar sua expectativa patrimonial baseando-se em saldos que não foram integralmente validados perante as normas oficiais vigentes. Cabe assim ao investidor e mercado em geral o monitoramento assíduo da execução do referido plano de adequação da gestão Urca nos relatórios gerenciais subsequentes.

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O conteúdo desta notícia é puramente informativo e baseia-se em documentos oficiais publicados pelo fundo, não configurando, sob nenhuma circunstância, recomendação de compra, venda ou manutenção de cotas. Investimentos em renda variável contêm riscos iminentes, e retornos pretéritos não representam qualquer garantia de rendimentos futuros.

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Marcelo Fayh

Marcelo Fayh é analista de investimentos certificado (CNPI) e consultor de investimentos credenciado na CVM, fundador da US Wealth Consultoria de Investimentos (também credenciada na CVM).

Atua no mercado financeiro desde 2005: foi sócio de um escritório de agentes autônomos por quase 9 anos, trabalhou com M&A por 4 anos e é analista e consultor de investimentos há mais de 7 anos, especializado em Fundos Imobiliários (FIIs) e ETFs. É autor do livro Método Fayh: Descubra Como Escolher os Melhores Fundos Imobiliários do Mercado e Viva de Renda.

No blog, traduz os documentos oficiais dos fundos — fatos relevantes, relatórios gerenciais e informes — em análises acessíveis.

O conteúdo é educativo e não constitui recomendação de investimento.

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